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O Bairro Tacha (1948-1958)

O lugar da minha infância: recordações.

O Bairro Tacha (1948-1958)

O lugar da minha infância: recordações.

O Bairro Tacha

Do lado de cá da linha dos comboios, mas ainda pertencendo a Benfica, havia um pequeno lugarejo conhecido por Buraca. Quem descesse do comboio no apeadeiro, ou com maior frequência na estação, teria que atravessar a linha, palmilhar a estrada da Buraca ladeada por quintas e casas apalaçadas e passar por baixo de um dos arcos do aqueduto das Águas Livres. A estrada prosseguia o seu imóvel caminhar subindo íngreme até ao Alto da Boavista, ao pé do estádio de Pina Manique, o campo do Casa Pia.

A meio da estrada da Buraca, no seu ponto mais baixo, encontra-se o Chafariz da Buraca, uma esplêndida obra de arte apensa ao aqueduto e, do lado oposto, uma árvore secular onde, diz-se, um dia teria parado ali a rainha D. Amélia para descansar à sua sombra. A árvore foi preservada em memória da rainha do coração de muitos portugueses, mas receio que a iconoclastia reinante e a cupidez dos mercados a tenham feito ir à vida.

Quem passasse o mesmo arco e subisse no outro sentido pela rua da Buraca repararia no conjunto de pequenas vivendas que se emparavam umas às outras, dispostas ao longo do lado direito da rua. Do outro lado, havia hortas, nada digno de nota por tão comuns que eram naquela altura. Aquele casario, que a certo ponto cessava para dar origem a um descampado com algumas oliveiras aonde acampavam os ciganos, era a Buraca.

A rua da Buraca terminava no cruzamento do Jordão, devido ao nome de um estabelecimento aí localizado, e daí irradiavam três estradas. A da esquerda conduzia ao campo do Casa Pia e ao bairro da Boavista; a da direita atravessava a linha e conduzia à praceta da Damaia, à estrada militar e, a partir desta, às Portas de Benfica. Eram estas duas estradas que separavam as freguesias de Benfica e da Amadora, esta última pertencente ao concelho de Oeiras. No meio delas, bissectando-as, recortava-se a estrada de Alfragide que, atravessando a estrada de Sintra, projectava-se com outros nomes pelas searas do Canas, passava por Carnaxide, ia fazer promessas à Senhora da Rocha, circulava por Linda-a-Pastora e ia desaguar na Cruz-Quebrada.

O segundo arco do aqueduto dava acesso a uma estrada sinuosa e descampada, a travessa Sargento Abílio, que conduzia ao Calhariz de Benfica, outro pequeno lugarejo encimado sobre a linha do lado oposto à estação e a paredes meias com o Monsanto.

À volta da estrada de Alfragide, logo ali ao Jordão, começou-se a construir, na década de 40, um pequeno núcleo habitacional constituído por quatro ruas em forma de cerquilha a que veio a dar-se o nome de Bairro Tacha por ser este o nome do seu construtor. Os meus pais arranjaram ali casa, julgo que em 46, quando se casaram. E ali tiveram os seus filhos e fizeram a sua vida.

Era o Bairro Tacha à Buraca. Nos anos 60 o nome começou a entrar em desuso e o bairro começou a chamar-se, simplesmente, Buraca. Mas já não era o mesmo: apareceram outras gentes e outros costumes, as cearas, as hortas, as quintas e os retiros foram desaparecendo e deixou de haver uma separação nítida entre a Buraca, Alfragide e a Damaia que passaram a ser nome para as três freguesias integradas no concelho da Amadora recentemente criado. Hoje a Buraca é um nó viário, um Amazonas de asfalto que rasga e seca a terra em todas as direcções.

Os limites e as veredas do mundo

Nasci não muito longe de Lisboa e ia a Lisboa a pé como os da velha Telheiras iam ao Campo Grande. As fronteiras não nos impressionavam muito, tirando as Portas de Benfica com as suas torres redondas orladas de ameias, e as distâncias mediam-se pelas pessoas que se encontravam. Entre a minha casa e Benfica, havia uma casa rústica de um senhor qure tinha umas vacas e era protestante. Ia lá muitas vezes buscar o leite e ele sentava-me num banco de ordenhar e lia-me a Bíblia. Calhando, atravessava a mata e, descendo-a, ia dar à avenida Grão Vasco. Apesar da curta distância, a fileira de casas de ambos os lados da procissão de amoreiras, que ia desde o externato à igreja, parecia-me interminável, o que a fraqueza das frágeis pernas corroborava. A outra volta era serpentear pela velha estrada das Garridas, que começava no velho apeadeiro de madeira escura da Buraca e ia dar ao chafariz da estrada de Benfica ao lado do que veio a ser a Caixa Geral de Depósitos, onde havia o Patronato contíguo ao campo de hóquei. Para ir à escola do Magistério Primário, onde hoje é a Escola Superior de Educação, ou ao cinema do clube na avenida Gomes Pereira, onde hoje é a junta da freguesia, começava-se por um carreiro que bordejava a  linha dos combóios até à estação de Benfica.

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Para além da estrada e da igreja, morava numa ponta da rua Cláudio Nunes, perto do cemitério, a minha tia Maria do cão preto, uma viúva tão vasta de corpo como de afecto, com três filhos: o mais velho que cedo foi para a Pérsia, o do meio que me levou ao cinema no dia em que fiz 5 anos, e uma prima da minha idade. Na direcção de Carnide, na estrada do Poço do Chão, moravam os meus padrinhos, dinamarqueses, local onde passei a maior parte do tempo dos meus primeiros cinco anos de vida. Andando um bocado a pé por aquelas azinhagas, ia-se à feira da Luz, onde a madrinha Leninha me comprava pífaros de barro.

 Para fora de Lisboa, ia às vezes a casa de uns tios que viviam ali para os lados da Venda Nova.

Mas o lugar de recreio, o mais vasto lugar de recreio, era o parque florestal do Monsanto para onde íamos ao domingo fazer picnics e sestas à sombra dos pinheiros ou ver os patos no lago no miradouro de onte eu espreitava o mundo em todas as direcções.

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