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O Bairro Tacha (1948-1958)

O lugar da minha infância: recordações.

O Bairro Tacha (1948-1958)

O lugar da minha infância: recordações.

Os limites e as veredas do mundo

Nasci não muito longe de Lisboa e ia a Lisboa a pé como os da velha Telheiras iam ao Campo Grande. As fronteiras não nos impressionavam muito, tirando as Portas de Benfica com as suas torres redondas orladas de ameias, e as distâncias mediam-se pelas pessoas que se encontravam. Entre a minha casa e Benfica, havia uma casa rústica de um senhor qure tinha umas vacas e era protestante. Ia lá muitas vezes buscar o leite e ele sentava-me num banco de ordenhar e lia-me a Bíblia. Calhando, atravessava a mata e, descendo-a, ia dar à avenida Grão Vasco. Apesar da curta distância, a fileira de casas de ambos os lados da procissão de amoreiras, que ia desde o externato à igreja, parecia-me interminável, o que a fraqueza das frágeis pernas corroborava. A outra volta era serpentear pela velha estrada das Garridas, que começava no velho apeadeiro de madeira escura da Buraca e ia dar ao chafariz da estrada de Benfica ao lado do que veio a ser a Caixa Geral de Depósitos, onde havia o Patronato contíguo ao campo de hóquei. Para ir à escola do Magistério Primário, onde hoje é a Escola Superior de Educação, ou ao cinema do clube na avenida Gomes Pereira, onde hoje é a junta da freguesia, começava-se por um carreiro que bordejava a  linha dos combóios até à estação de Benfica.

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Para além da estrada e da igreja, morava numa ponta da rua Cláudio Nunes, perto do cemitério, a minha tia Maria do cão preto, uma viúva tão vasta de corpo como de afecto, com três filhos: o mais velho que cedo foi para a Pérsia, o do meio que me levou ao cinema no dia em que fiz 5 anos, e uma prima da minha idade. Na direcção de Carnide, na estrada do Poço do Chão, moravam os meus padrinhos, dinamarqueses, local onde passei a maior parte do tempo dos meus primeiros cinco anos de vida. Andando um bocado a pé por aquelas azinhagas, ia-se à feira da Luz, onde a madrinha Leninha me comprava pífaros de barro.

 Para fora de Lisboa, ia às vezes a casa de uns tios que viviam ali para os lados da Venda Nova.

Mas o lugar de recreio, o mais vasto lugar de recreio, era o parque florestal do Monsanto para onde íamos ao domingo fazer picnics e sestas à sombra dos pinheiros ou ver os patos no lago no miradouro de onte eu espreitava o mundo em todas as direcções.

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