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O Bairro Tacha (1948-1958)

O lugar da minha infância: recordações.

O Bairro Tacha (1948-1958)

O lugar da minha infância: recordações.

A escola do Magistério

Com seis anos fresquinhos, o meu pai inscreveu-me na Escola Normal. O Magistério Primário de Lisboa, assim se chamava na altura, era uma instituição de formação de professores primários que funcionava a par da escola primária aberta às crianças da comunidade. Fora construída no alto de um imenso descampado, situado na antiga Quinta de Marrocos, nas traseiras da Avenida Gomes Pereira, e tinha acesso, quer pela estrada de Benfica, passando ao lado do quartel dos bombeiros, quer, andando pelo lado oposto,  pela estação de Benfica, por onde eu vinha e regressava diariamente a casa. A segunda circular, que descaracterizou completa e irremediavelmente o local, só viria a ser construída no início da década seguinte.

 

Dizem alguns entendidos, e vê-se escrito a torto e a direito, que a saída de casa para a escola é um evento traumático. Baseiam-se estas suposições no facto indesmentível de que a criança é separada das pessoas e dos lugares conhecidos para se defrontar com pessoas e lugares estranhos e de que, facto provavelmente desmentível,  passa a ter exigências e normas de conduta quando a vida era, dantes, de regabofe e libertinagem. A reflexão, o conhecimento científico e a experiência de vida conduziram-me a uma desconfiança radical relativa às teorias psicológicas populares e a só dar como assente, e até prova em contrário, a teorias baseadas em pressupostos sólidos e que resistem, de acordo com o método experimental, ao confronto com os factos empíricos. O medo face aos estranhos e o pavor de se perder em lugares desconhecidos são factos bem estabelecidos, mas ocorrem em períodos da vida muito precoces, nos primeiros meses de vida. A partir daí, as crianças alargam o conhecimento do espaço periférico, desenvolvem teorias cognitivas sobre o mundo físico e humano, começam a diferenciar as intenções dos estranhos, tomam gradualmente consciência dos riscos envolvidos e adoptam estratégias de afrontamento do novo e desconhecido, sobretudo as estratégias desenvolvidas em regime de manada. E é em regime de manada que se imagina e testa novas normas de conduta social. As brincadeiras em bando nas ruas do bairro tinham tido esse papel e a nova vida social era relativamente emancipadora às normas castradoras da vida em casa e em família. O certo é que não experimentei com a minha ida para a escola nada de constrangedor e ela foi, até certo ponto, uma libertação.

 

Além disso, o novo exercia um enorme fascínio, tão excitante como a descoberta de novos mundos, a exploração de continentes, a descoberta de raças e civilizações exóticas com que me fora familiarizando nas minhas leituras infantis e nos livros aos quadradinhos.

 

Foi uma festa e uma excitação o período que antecedeu o início das aulas. Para além dos brinquedos, e das roupas e do calçado que se me colavam ao corpo e que para mim eram transparentes, alarguei o meu espólio de pertences materiais.  Vieram os primeiros lápis, de marca Viarco, que tresandavam de cheirinho bom quando eram aparados, as primeiras borrachas de dupla função, parte para apagar lápis, parte para apagar tinta e rasgar o papel, e o afia-lápis de metal e meia dúzia de lápis de côr de tamanho reduzido. Tudo para guardar numa caixa rasa de madeira com uma tampa de correr, pois o meu grande desgosto e desilusão foi nunca ter tido, até hoje – note-se!, uma caixa de segundo andar como os autocarros verdes da Carris.  Mais tarde tive a minha caneta de aparo, que mergulhava nos tinteiros brancos inseridos nos tampos das carteiras para molhar a ponta, e o respectivo mata-borrão para me livrar dos excessos de tinta. A primeira caneta de tinta permanente, uma Parker, deu-ma o meu pai quando fiz o exame da quarta classe. Tive, nessa altura, o meu primeiro caderno de duas linhas para o treino da caligrafia e a sebenta para os números, as contas e os desenhos. O busilis era acartar com a ardósia que fazia peso e usá-la porque embirrei logo com ela na primeira utilização: o risco nunca saía como desejado e fazia um sonho de arranhado que me molestava. Só me voltei a lembrar da ardósia muitos anos mais tarde quando peguei pela primeira vez no meu iPad Retina. Ah! Como tinha evoluído a tecnologia do quadro portátil! Tudo isto ia dentro dentro de uma pasta que palmilhava  comigo aqueles quilómetros que distavam da minha casa à escola, tal como a lancheira onde iam os víveres para o mata-bicho.

 

E os livros? Pois, os livros! Já estava familiarizado com eles, mas o que já ia lendo,os da colecção Formiguinha, eram mais pequeninos e levezinhos. O Livro da Primeira Classe, assim se chamava o meu primeiro livro. Tinha uma capa de amarelo-torrado debruada com quatro fileiras de glifos decorativos castanhos a simular ramos de folhas alternadas. Nos dois terços superiores, a imagem de um casal de pequenotes, provavelmente irmãos, ele, que aparenta ter uns aninhos mais, passa um braço protector sobre o ombro da loirita de laçarote azul e com a outra mão ajuda a soerguer o livro que ela, a Raquel, parece soletrar. Logo numa das primeiras páginas o “a e i o u”, cada letra a vermelho em correspondência com uma imagem, o “a” com as águias do Benfica, o “e” com um “cavalo”, o “i” com uma igreja, o “o” com um ninho com cinco ovos e o “u” com um cacho de uvas. Na altura, não percebi essa do “e” estar relacionado com o cavalo e, apesar da insistência dos adultos a explicar que se tratava de uma égua, e que esta era a mulher do cavalo, eu não ligava muito à  questão do género que só me veio a interessar por alturas da quarta classe quando comecei a brincar aos maridos com as colegas. Quando, alguns anos mais tarde, me interessei pela evolução das linguas românicas, percebi que a língua latina dispunha muitas vezes de duas palavras distintas para designar o mesmo objecto, como “caballus” e “equus” para designar o cavalo, “catus” e “felix” para designar o gato. Daí, o terem aparecido termos como “égua” e “felino”. Mas esta explicação, bastante simples e elucidativa, veio demasiado tarde para esclarecer o mistério do “e”. Também comecei a entender que, quando os adultos começavam a engasgar explicações para os mistérios que eu procurava esclarecimento, o assunto metia geralmente sexo.

 

Durante os três anos que frequentei a Escola Normal as minhas professoras chamavam-se alunas e todos os semestres tinha duas ou três alunas diferentes. O Estado procurava assegurar que vinham de boas famílias, católicas e patrióticas, e que eram donzelas puras e de reputação imaculada. Sendo a sua elevada missão a de educar sãmente os rebentos da mocidade, assim deviam permanecer castas de pensamento, palavras e acções. Não estavam autorizadas a namorar. Quando já professoras tinham que pedir autorização para casar ou para viajar para o estranjeiro. Nesses tempos, eu não sabia disso. Mas achava as alunas muito simpáticas, carinhosas e dedicadas.

 

Um bom exemplo disso foi quando, certo dia, na violência dos recreios, levei um pontapé nas partes e fiquei a sangrar devido a uma ferida profunda na glande.  Chorei, assustado pelo sangue, e fui logo conduzido à aluna de serviço que me conduziu à casa de banho, me lavou e desinfectou, e, para me distrair do susto, pôs-se-me a fazer carícias no órgão que entumesceu, o que provocou uma dôr fininha, estancou a sangria e me deu uma paz profunda. Pediu-me que viesse mostrar no dia a seguir para ver se já estava sarado. Como fiquei logo sarado, não mostrei. Mas nunca mais me esqueci da exaltação daquele momento.

 

Nos primeiros meses, ia e vinha acompanhado pela minha mãe. Nos meses seguintes, as mães começaram a cooperar para conduzir as ninhadas à escola. Passados tempos, comecei a ir e a vir acompanhado com os meus colegas do bairro. Andávamos com uma bata que só tirávamos quando chegávamos a casa. A minha mãe esforçava-se por trazer as minhas batas de um branco alvíssimo e impecavelmente engomadas e impunha-me o esforço de não as sujar ou enrugar. Eu perguntava-me a mim próprio se não valeriam bem os puxões de orelha que levava todos os dias em troca de poder brincar à vontade e enxovalhar a porcaria da bata. Até porque produzia danos colaterais. Era costume a escola dar pelo Natal brinquedos aos meninos pobres. Eu não recebia nada porque era rico: tinha a bata sempre engomada e andava sempre calçado. Não foi sem razão ou motivo que em adulto odiei sempre as fardas,as gravatas e os fatos caros. A roupa que nos espartilha os corpos também nos espatilha as vidas e cerceia as liberdades.

Os brinquedos

Chegavam, geralmente, por altura das festas solsticiais: a maior parte vinha pelo Natal; o outro lote, pelo meu aniversário, em finais de Junho.

 

Dos meus pais recebia coisas que, se bem que desejadas e, às vezes, muito apreciadas, não as considerava brinquedos. Calçado, roupas e adereços eram distintivos que iam assinalando marcos do meu crescimento e que consagravam uma posição cada vez mais elevada e mais reforçada no mundo hierarquizado dos adultos e dos estavam em vias de sê-lo. Ocasionalmente, recebia sapatos para substituir os que já apertavam e magoavam os pés. Com mais frequência, davam-me meias novas cujos elásticos, estando em bom estado, impediam que elas me caissem pés abaixo. Iniciaram-me na camisa à homem, tão apertada no pescoço que sufocava. Com a camisa pude experimentar laços espantosos que me distinguiam dos meus contemporâneos por uma personalidade ímpar. Finalmente, um certo dia, já avançado no curso do meu crescimento, tive o direito às primeiras calças e pude,então, começar a pôr de lado os calções. À mistura com as coisas sérias vinha sempre o brinquedo, um carrinho ou uma camioneta de lata ou de madeira, alvo principal da minha motivação para me levantar cedo no dia de Natal e ir logo de corrida para a chaminé onde na véspera deixara os sapatos.

 

Eram os meus padrinhos que me davam mais brinquedos e não se limitavam a dar em datas previsíveis. Eram brinquedos muito preciosos, daqueles que nesses tempos não se viam senão, e muito raramente, nas montras das lojas caras e o meu uso deles acabou por ser muito cerceado pelas regras que me impunha a D. Ermelinda, a minha mãe, para evitar que brinquedos tão lindo e tão caros se estragassem. Do pouco que me resta para recordar, foi esse o caso de um magnífico tanque de guerra metálico, de proporções bastante avantajadas para o grosso do material circulante que populava o meu património. Dava-se-lhe corda e ele, girando sobre as suas lagartas, galgava por cima de todos os obstáculos que encontrava no terreno e ia faiscando chispas por uma vigia sob o canhão imponente. Coisas americanas! Estava-se nos primeiros anos do pós-guerra, já não havia as bichas para o carvão de que tanto ouvia falar, e o tanque estava ali para nos defender dos maus que faziam a guerra, que, se pudessem, nos levariam outra vez para os tempos da carestia de vida e da pneumónica. De tanta corda lhe ter dado, um dia ouvi-a a desbobinar freneticamente lá por dentro e percebi que tinha irreparavelmente perdido a tensão qure lhe permitia a marcha autónoma. A partir desse momento, o brinquedo perdeu o seu estatuto especial. Andava, mas só se fosse empurrado; disparava, se fizesse, como para os outros brinquedos banais, o pumpumpum com a boca. Eu próprio me sentia desclassificado, remetido para a banalidade do ser comum e vulgar. Já não dava, como dantes, para ir para as escadas, o mais longe que a minha mãe permitia, para mostrá-lo aos meus amigos. Já não dava para deixar cada um experimentá-lo, revelando a minha benevolência. Deixara de ser dono de um objecto ímpar e descobri, uma vez mais, a precariedade das coisas materiais e das circunstâncias da vida. Afinal, não estávamos assim tão bem defendidos da guerra como toda a gente pensava.

 

Recebia também brinquedos das “francesas”, de uns vizinhos sem filhos, dos meus tios do Entroncamento e de outros familiares, dos amigos que o meu pai arranjava com facilidade por todos os lados no seu giro por Benfica. Mas, momento importante e solene, com data marcada e espera prolongada e muda, era a festa do natal que os serviços sociais dos C.T.T. faziam todos os anos no Pavilhão dos Desportos para os filhos dos funcionários.

 

A excitação começava na manhã do dia anunciado.Tornava-se impaciência com as exigências e rigores de vestuário antes de sairmos de casa, alongava-se com a espera da camioneta do Eduardo Jorge, a lentidão com que subia o Monsanto e com que descia a autoestrada em direcção ao Marquês. Aqui chegados, começávamos a ver outras famílias a atravessarem o parque Eduardo VII, a descer a Fontes Pereira de Melo ou a atravessá-la vindos da avenida da Liberdade e a convergirem para o pavilhão. No átrio de entrada do pavilhão havia bancas, creio que por idades mas não estou muito seguro disso,onde o funcionário e a prole eram identificados e onde recebia a prenda, o lanche e o balão. Logo ali à entrada, havia já um arco-iris de balões colados ao tecto. Lá dentro, a ascenção iria ser de minuto a minuto, à medida em que cada um se punha a abrir a sua prenda e a familiarizar-se com o brinquedo. Havia um espectáculo, mas isso era coisa que interessava mais aos adultos que se fartavam de rir com a exibição dos palhaços.

 

Nem todos os brinquedos eram oferecidos e apareciam com data marcada. Para começar,havia os produtos de marketing, que na altura se chamavam reclames, como o brinquedo de plástico de pequenas dimensões que vinha no interior da caixa da farinha Amparo, cujas papas comíamos matinalmente às pazadas para acelerar a reposição da caixa. Os cromos com as efígies dos jogadores de futebol (o Travassos, o Coluna, o Vicente, o Matateu, o Costa Pereira,o Virgílio, o Águas, o Eusébio e o Peyroteo) vinham a envelopar os rebuçados ou dropes que comprávamos com as nossas economias. Recortávamo-los de modo a caberem no interior das caricas das bebidas e jogávamos com elas num campo de futebol desenhado no chão, uma espécie de matraquilhos em campo accionados à “berlaitada”. Havia os soldadinhos de plástico, versão pobre a emitar os de chumbo, em casernas onde coabitavam soldados romanos, com índios e tropas SS. Havia os bilas, para os quais as nossas mães confeccionavam sacos de pano para evitar que rompêssemos os bolsos dos calções,havia os piões de madeira que, depois de lançados, aparávamos com a mão para picar os dos  outros, as “chichas” ou bolas pequenas de borracha para todo o tipo de jogos de bola, a fisga, as pistolas com coldres e mascarilha para jogar aos “cábois”. Outros eram confeccionados por nós, com ou sem a ajuda de adultos: o avião de papel, o arco e as flexas de índio, o punhal e a espada, o escudo, os arcos de jogar ao arco que empurrávamos com uma gancheta e os carrinhos de madeira com rodas de esferas com que adestrávamos as perícias de pequenos fangios nas descidas íngremes das ruas 2 e 4.

 

O brinquedo era sempre mais interessante quando artesanado por nós. Eu tinha uma predilecção particular por inventar coisas. Transformar um objecto utilitário do quotidiano em brinquedo era um passo maravilhoso de magia. A minha preferida era transformar as molas de madeira de estender a roupa em exércitos que deslocava no extenso corredor de oito metros da minha casa. A D. Ermelinda é que não gostava mesmo nada disso: passar as molas pelo chão que as pessoas pisavam não era o mais adequado para pendurar a roupa acabada de lavar. O pior era que eu pintava cada mola com divisas, galões e insígnias daquilo que eu imaginava serem as patentes e as armas dos exércitos. Aquelas pobre almas arrastavam-se pelo chão no ataque a fortes inexpugnáveis construídos com caixas de sapados com ameias recortadas à tesourada. E eram rejeitados pelos defensores a poder de berlindes, as armas de arremesso de que ambos os contendores dispunham.

 

Não eram metamorfoses, porque as coisas não mudavam de forma: a cada momento mudavam de significado. Por detrás do significado expresso de cada coisa, havia uma série de significados encobertos predispostos a revelarem-se se assim a gente o quisesse. Quando descobri que as minhas acções alteravam o significado às coisas comecei a construir o meu próprio mundo e nunca mais o larguei. Tornou-se um casulo que não parei de construir e reconstruir. E como vim também a descobrir que não estava sozinho a construir mundos, o universo converteu-se numa cornucópia de mundos.

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