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O Bairro Tacha (1948-1958)

O lugar da minha infância: recordações.

O Bairro Tacha (1948-1958)

O lugar da minha infância: recordações.

Aprender a ler, a brincar e a falar francês

Comecei a ler com o meu pai quando ele começou a ler-me a Página Infantil do Diário Popular. A fabulosa capacidade que ele tinha de extrair histórias engraçadíssimas daquelas garatujas entusiasmava-me. No dia a seguir, ele ia para o trabalho e eu ficava em casa sentado no corredor a contemplar os desenhos do José de Lemos. Punha o dedo em cima da página do jornal e ia navegando letra a letra, palavra a palavra, enquanto recontava para mim próprio de memória a estória que ouvira ler na véspera.

 

Decidi, então, que também sabia ler. A partir dali, só tinha que conhecer as letras e aprender a técnica de juntá-las para formar palavras, um pormenor com que fui lidando, pouco a pouco e sem esforço, com a ajuda do meu pai. Aos cinco anos já lia umas coisas, mas aos seis fui para a escola desaprender a ler.

 

Por esta altura, já não brincava só no quintal e ia todos os dias brincar para a rua com os outros meninos que eram, mais ano, menos ano, da minha idade. Quando éramos ainda muito pequenos, brincar consistia em juntarmo-nos em pequenos bandos e trocar experiências. No fundo, íamos comprovando que a vida lá em casa não era muito diferente da dos outros, e percebendo que os adultos, ou seja os pais, se tinham contagiado todos com as mesmas manias. Outras vezes falávamos dos nossos brinquedos e, quando nos deixavam trazê-los connosco para a rua, fazíamos trocas temporárias.

 

Quando mais crescidos, alargámos os nossos interesses aos jogos tradicionais que requeriam competências sociais muito complexas, como compreender regras e ser capaz de aceitá-las. Brincava-se à apanhada e às escondidas que não requeriam um número certo de gente, eram jogos mistos e tinham regras simples. Não por tabu, mas por uma inexplicável questão de preferências, havia também jogos para cada sexo: A macaca era o jogo preferido das meninas e o bilas e as caricas eram jogados quase sempre pelos miúdos. Mais para a tardinha do dia, quando já andava a malta toda na escola, jogava-se ao mata, ao ringue, à cabra cega, ao rei manda, à mamã dá licença. O jogo final, o ringue, começava quando as francesas chegavam do liceu. O Sr. Francisco arrumava o carro em cima do passeio um pouco mais à frente da casa para nos dar espaço e elas corriam a casa a pôr as malas e a buscar o ringue de borracha. A rua era um enorme rectângulo ocupado pela malta miúda, cerca de uma vintena, que ria corria, suava, afogueava-se. A coisa acabava sempre da pior maneira. Uma a uma, as mães vinham à janela chamar para jantar. A resposta, invariável, era: “Mãe, já vou. É só mais um bocadinho!”. E invariavelmente, a mãe respondia: “Não te volto a chamar.” O que a ser verdade nos daria uma grande felicidade. Um a um, íamos desertando com a promessa firme de que voltar no dia seguinte.

 

No rés-do-chão, no lado oposto ao dos meus pais, moravam as francesas. Assim se referiam a esses nossos vizinhos as pessoas do bairro. Mas, na realidade, apenas a mãe, ou a Madame como nós a tratávamos, era francesa, natural da Alsácia. A Gabi e a Lenoca eram bem portuguesas, filhas da Madame e do Sr. Francisco, creio que motorista da embaixada americana.

 

As francesas teriam provavelmente nascido noutro lado mas vieram para aquela casa muito novinhas. Eram uns anos mais velhas do que eu e decidiram, portanto, adoptar-me. Como iam todas as manhãs dos dias de semana para o liceu Charles Lepierre, eu ficava sozinho no quarto delas a consumir tudo o que me era possível naquela imensa biblioteca infantil. Um a um, li os livros todos da colecção Formiguinha, de pequeno formato, alinhados na estante à cabeceira das camas delas. Depois, comecei a ler livros maiores de outras colecções da Majora, onde o bom alinhavo da narrativa se casava sempre bem com o grafismo espantoso das suas ilustrações. Mais tarde, já andava adiantado na escola, entrei pela colecção Salgari a dentro devorando os sandokans e os tigres da Malásia. De outros livros, lembro-me dos do Walter Scott e dos Cinco e de como olhava de soslaio para os romances policiais do Sr. Francisco, arrumadinhos numa estante da sala ao lado do enorme sofá onde eu me afundava a ler as minhas carochinhas.

 

Lia avidamente todos os dias, todas as horas, todos os minutos. A meio da tarde, a minha mãe chamava-me para lanchar. Como excelente cozinheira que era, preparava saborosas iguarias para me atrair a casa. As miúdas galgavam as escadas acima, lambareiras e, como térmitas esfomeadas, limpavam a mesa da merenda sem deixar migalha. Cada vez, a minha mãe fazia mais, diversificava e sofisticava. Eu é que nada, deixava-me ficar, o meu propósito era aproveitar o tempo para ler, ali mesmo na cozinha onde a Madame, com o seu ar austero e o seu português germanizado, passava a ferro enquanto eu comia o lanche que me preparara, frugal mas suficiente e com paladares que eu nunca tinha experimentado. Ao jantar o meu pai ouvia as queixas e as recriminações da minha mãe e ficava a saber o ingrato que eu era. E desfazia na francesa, que não sabia cozinhar, ela e ele tão magricelas, com as miúdas a passarem fome de rabo, que aquilo até era um gosto vê-las comer.

 

O ponto alto do meu programa de leituras era ao sábado quando vinha o Sr. Américo, o jornaleiro, trazer o Século ao Sr. Francisco e deixava para as meninas a edição semanal do Cavaleiro Andante. O cavaleiro andante era uma revista de bonecos, ou de banda desenhada como hoje se chama. Como elas eram umas miúdas arrapazadas ou cavalonas, segundo os ditos da altura, queriam era andar na rua e quem estreava o Cavaleiro Andante era eu. Mais tarde apareceram outras revistas, como o Falcão e o Condor Popular com estórias completas, mas o Cavaleiro andante apenas trazia uma ou duas páginas de cada história, algumas mesmo intrigantes como o Mistério da Grande Pirâmide ou a Marca Amarela com o Blake e o Mortimer, outras deslumbrantes como o Tim-tim na Lua, o Lotus Azul ou o Tim-tim na América do Norte, discronias maravilhosas como Um Americano na Corte do Rei Artur, o devendar dos mistérios de África, o imaginário bíblico em o David Pastor da Judeia, índios e cowboys em Regresso de Sitting Bull, e uma galeria de heróis como o Tarzan, o Zorro, o Mascarilha, o Robin dos Bosques, o Marco Polo, o  Davy Crockett, o Lucky Luke, o Billy the Kid, o Michel Vaillant, o Asterix e mais. Uma página ou duas era pouco para satisfazer um espírito ávido, despertava uma estranha ansiedade que me acompanhava durante mais uma semana de espera.

 

Quando as francesas chegavam da escola punham-se a ensinar-me francês. Aprendi, então, a recitar de cor:

 

Un deux trois
Je m’en vais au bois
Quatre cinq six
Cueillir des cerises
Sept huit neuf
Dans mon panier neuf
Dix onze douze
Elles seront toutes rouges

 

Chique, mesmo chique! Mas não tocava piano.

 

Na escola não lia coisa de jeito. Ao fim de um ano soletrava coisas como “O PA-PÁ PA-POU O PI-PI DA TI-TI”, mas aquilo não me dizia nada e decidi não colaborar. Na terceira classe já devorava tudo o que fosse botânica ou zoologia. Os estudos comparativos e as sistemáticas interessavam-me. Foi um prelúdio do meu interesse pelo evolucionismo. A história também, de certo modo: saber os reis de todas as dinastias e os respectivos cognomes era obra, mas não passava de um exercício de equilibrismo intelectual: aqueles reis não chegavam aos calcanhares dos reis, rainhas, princesas e príncipes das minhas primeiras estórias. A realidade só ultrapassou a imaginação, e comoveu-me deveras, com a leitura nas páginas dos jornais da morte da Princesa Diana.

 

A vida no bairro

Como já referi, mas não com o pormenor suficiente, o bairro abrangia o troço da estrada de Alfragide, duas ruas perpendiculares, a 1 (actualmente, Padre Cruz) e a 2 (Padre Américo), que terminavam abruptamente num morro de onde se vislumbrava a Damaia, duas ruas paralelas, a 3 (Prof. Dr. Egas Moniz) e a 4 (António Ferro), que, vindas da estrada de circunvalação no sentido da Adamaia, cruzavam as primeiras e perdiam-se nas searas entre o bairro e o pequeno casario de Alfragide, e uma pequena travessa (rua Gonçalves Zarco) que, saindo da estrada de Alfragide atalhava para a estrada de circunvalação no sentido do bairro da Boa Vista.

 

A construção, antes do aparecimento dos prédios “novos” nos finais dos anos 50, resumia-se a dois tipos: o mais antigo, encontrado na estrada de Alfragide e na travessa, era formado pelos chalés unifamiliares, de piso térreo e completamente rodeados por um quintal; o mais recente e o mais comum, o das quatro ruas, por prédios de quatro habitações cada, com o rés-do-chão envolvido pelo quintal.

 

Acedia-se à habitação pela porta da rua e pelas escadas. A porta interior dava para um corredor com cerca de oito metros que ligava a sala de jantar, que dava para a rua, com a cozinha, a dar para as traseiras. De um dos lados do corredor, um quarto interior e a dispensa, e do outro lado dois quartos e a casa de banho voltados para o quintal. Apensos à cozinha, um cubículo de arrumos com uma pia e uma pequena marquise. Ignoro se as casas eram todas assim, mas esta era a estrutura da minha casa no prédio JB da rua 3.

 

À frente de cada prédio, os quintais eram ajardinados ao gosto e de acordo com a imaginação e a posse dos seus possuidores. Lembro-me fugazmente das roseiras, de rosas vermelhas ou brancas, que trepavam as paredes altas que separavam os quintais, e dos jarros e das margaridas nos canteiros de tijolo, cimentados e pintados com cores vivas. Subindo por uma pequena escada cimentada ia-se dar, de cada lado do prédio, a um corredor de calçada à portuguesa colocado entre a parede do prédio e uma faixa de terreno mais larga onde havia árvores plantadas, geralmente nespereiras ou limoeiros. Nas traseiras, o passeio de calçada alargava-se para formar um pequeno pátio e o terreno alongava-se para acolher hortas com couves, alfaces e feijão de trepar, capoeiras com galináceos e coelhos, e árvores de fruto como a macieira, a pereira e o pessegueiro.

 

A população era sobretudo constituída por casais novos, com um ou dois filhos e um ou outro parente. Os habitantes mais instruídos tinham o quinto ano dos liceus ou um curso técnico. Ter o sétimo ano, o que era muito raro, fazia da pessoa um doutor. A larga maioria da população tinha a 4ª classe, geralmente os homens, ou era analfabeta. Predominavam os pequenos e médios funcionários dos serviços (forças armadas, polícia, bombeiros, correios, carris, CP) ou operários qualificados e semiqualificados, sendo a Sorefame na Damaia o principal empregador. As mulheres ficavam em casa como domésticas, a tratar da casa e dos filhos, e algumas eram operárias a tempo parcial ou prestavam em casa serviços de costura, de modista, de enfermagem, cabeleireiro ou outros pequenos serviços. Entre os homens, contavam-se alguns alfaiates e sapateiros.

 

O comércio era o suficiente para os consumos diários do bairro: Recordo-me de várias mercearias, peixarias e tabernas, duas padarias, um talho de carne de cavalo, uma carvoaria, uma capelista, uma drogaria e uma barbearia. Ninguém se servia do que precisava: esperavam todos, ordeira e pacientemente, do lado de cá do balcão, enquanto o merceeiro, o caixeiro ou o marçano, do lado de lá, aviava os clientes um a um. Ninguém se maçava com esta situação: era o momento do dia de alta convivialidade. As notícias do mundo era ali que circulavam. Era ali que se fazia os comentários sobre o quotidiano do bairro, dos nascimentos, dos baptizados, dos casamentos, das zangas entre marido e mulher (com obrigatória expressão pública à janela seguida de excursão dos vizinhos à casa da vítima), das doenças e achaques, dos funerais e dos enterros. Também ali se fazia o comentário político, o único que se podia ou sabia fazer: “o que o Salazar devia fazer era…”, por exemplo, aumentar os salários dos maridos, diminuir o custo da vida. Tudo se resumia a uma coisa bem simples, à ignorância do Salazar. O homem até tinha boa vontade mas estava rodeado de uma data de salafrários que lhe escondiam os problemas reais dos portugueses. O da loja também metia a sua colherada tentando impressionar a clientela com os seus conhecimentos. No fim, a gente ia embora e não pagava. Ia tudo para o livro dos fiados.

A arte de nascer e de falar

No tempo em que nasci, os partos eram feitos em casa. Quando chegou a hora, o meu pai pediu a assistência dos serviços clínicos dos CTT e mandaram-lhe uma enfermeira-parteira a casa. Apesar de ser um dia de verão intenso, enchi-me de coragem e decidi defrontar o mundo à hora mais quente do dia. A enfermeira tardava e eu não estava para grandes esperas, o que é estranho em mim que me considero, de um modo geral, paciente. Mas, caramba, só se nasce uma vez! E lá vim, assistido pelo meu pai que improvisava. Vim nédio e lustroso, dizem que pesava mais de 5 quilos, um “borrego” como se expressavam os meus velhos com orgulho. Correu tão bem o parto que descreveram a minha vinda ao mundo como tendo sido feita “de patins”. Todavia, não gritei, permaneci mudo para espanto de toda a gente. Assim fiquei e comecei a ficar roxo até que alguém se lembrou de me meter debaixo de uma torneira com água fria a correr. Não devo ter gostado nada da partida porque comecei a berrar que nem um vitelo.

 

Uma hora depois, mais coisa menos coisa, chegou a enfermeira que tinha tido uma “panne” na autoestrada na subida do parque florestal do Monsanto. Não perguntem qual era a autoestrada porque naquele tempo só havia uma: Ligava a ponte Duarte Pacheco ao estádio do Jamor, ambos inaugurados, autoestrada e estádio, havia quatro anos.

 

Não me lembro nada do que se passou nesses primeiros meses. Quando a minha mãe já estava em condições de voltar ao trabalho – era cozinheira em casa de uns senhores dinamarqueses que moravam no Poço do Chão – levava-me com ela. Muitas vezes ficava lá, primeiro com a minha mãe, mais tarde sem ela.

 

Sem me dar conta disso, parecia despertar um agrado geral nas pessoas que gravitavam à minha volta e que me solicitavam. Nunca a minha cotação esteve tão em alta. A certa altura, uma prima do padrinho Harald, uma dinamarquesa solteirona e entradota que estava em Lisboa de visita aos familiares, acho que podre de rica, quis levar-me com ela para København, que me ia fazer muito feliz e que lhes dava por mim o que eles pedissem. Os parvos dos meus pais não aceitaram. Manias daqueles tempos! Hoje as coisas estão mais liberalizadas, pelo menos no que respeita aos jogadores de futebol.

 

A crise passou. Por um lado, nunca fui muito de cismar nas coisas ... o que não fazia grande diferença porque também nunca era tido nem achado nas decisões dos adultos; por outro lado, as pessoas crescidas tinham mais com que se preocupar e amiúde mudavam de assunto. Isso ainda hoje me irrita, nas pessoas e nos noticiários.

 

Presenciava todas as conversas dos adultos, discretamente mas com muita atenção. Descobri, primeiro, que usavam os sons da boca para conversar. Faziam-no durante muito tempo, cada um de sua vez. Eu fazia como eles e verificava, muito agradado, que me davam atenção fazendo também eles muitos barulhos com a boca. Depois descobri as palavras, aprendi algumas e guardei-as ciosamente para mim. Os meus pais, alarmados, porque aos dois anos e meio ainda não falava, levaram-me a um médico que logo ali os tranquilizou garantindo-lhes que eu falar, falava, mas que era para dentro. Não sei como o médico o descobriu, mas cá para mim aquilo foi um palpite. Usei isso mais tarde como psicólogo de crianças e comprovei que quanto mais disparatado o palpite mais chances há de acertar. Eu fazia as minhas descobertas e comprovava-as cientificamente. Por exemplo, que os crescidos eram parvos: sempre que uma pessoa pequena improvisa eles respondem-nos com palermices e momices, tipo “glu-glu-glu” e “tá-tá-tá”.  Que ideia fazem de nós? Melhor seria, concluí, continuar as minhas pesquisas independentemente e não confiar muito na arraia graúda.

 

Descobri que certas palavras só podiam ser usadas juntas e não podiam ser misturadas com outras palavras. Por outro lado, havia grupos distintos de palavras para grupos distintos de pessoas e para ocasiões distintas. O grupo com maior frequência de utilização era usado pelo pessoal e pelos senhores quando falavam com o pessoal. Entre os membros da família usavam-se palavras que só eles entendiam. Quando havia jantares com as pessoas do “escritório” e outras pessoas que me eram estranhas, e se falava de negócios, usavam um terceiro grupo de palavras desengonçadas, as da língua inglesa que ainda hoje me entedia de morte. Os meninos falavam entre si numa língua que, a acreditar na Leninha, era muito “chique”. Gostei muito dessa palavra e ainda hoje adoro o Francês. Há dias, estava a ver um filme com a Graça e ela desabafou: “mas que língua tão estranha esta!”. É dinamarquês, disse sem pensar. E era. Achei-a uma língua muito doce.

 

Com três e quatro anos já falava alguma coisa mas depressa voltei a falar muito pouco. A minha mãe deixou o emprego para se dedicar a mim e à casa e voltámos decididamente para o Bairro Tacha. Então, o meu pai começou a ensinar-me a ler.

O Bairro Tacha

Do lado de cá da linha dos comboios, mas ainda pertencendo a Benfica, havia um pequeno lugarejo conhecido por Buraca. Quem descesse do comboio no apeadeiro, ou com maior frequência na estação, teria que atravessar a linha, palmilhar a estrada da Buraca ladeada por quintas e casas apalaçadas e passar por baixo de um dos arcos do aqueduto das Águas Livres. A estrada prosseguia o seu imóvel caminhar subindo íngreme até ao Alto da Boavista, ao pé do estádio de Pina Manique, o campo do Casa Pia.

A meio da estrada da Buraca, no seu ponto mais baixo, encontra-se o Chafariz da Buraca, uma esplêndida obra de arte apensa ao aqueduto e, do lado oposto, uma árvore secular onde, diz-se, um dia teria parado ali a rainha D. Amélia para descansar à sua sombra. A árvore foi preservada em memória da rainha do coração de muitos portugueses, mas receio que a iconoclastia reinante e a cupidez dos mercados a tenham feito ir à vida.

Quem passasse o mesmo arco e subisse no outro sentido pela rua da Buraca repararia no conjunto de pequenas vivendas que se emparavam umas às outras, dispostas ao longo do lado direito da rua. Do outro lado, havia hortas, nada digno de nota por tão comuns que eram naquela altura. Aquele casario, que a certo ponto cessava para dar origem a um descampado com algumas oliveiras aonde acampavam os ciganos, era a Buraca.

A rua da Buraca terminava no cruzamento do Jordão, devido ao nome de um estabelecimento aí localizado, e daí irradiavam três estradas. A da esquerda conduzia ao campo do Casa Pia e ao bairro da Boavista; a da direita atravessava a linha e conduzia à praceta da Damaia, à estrada militar e, a partir desta, às Portas de Benfica. Eram estas duas estradas que separavam as freguesias de Benfica e da Amadora, esta última pertencente ao concelho de Oeiras. No meio delas, bissectando-as, recortava-se a estrada de Alfragide que, atravessando a estrada de Sintra, projectava-se com outros nomes pelas searas do Canas, passava por Carnaxide, ia fazer promessas à Senhora da Rocha, circulava por Linda-a-Pastora e ia desaguar na Cruz-Quebrada.

O segundo arco do aqueduto dava acesso a uma estrada sinuosa e descampada, a travessa Sargento Abílio, que conduzia ao Calhariz de Benfica, outro pequeno lugarejo encimado sobre a linha do lado oposto à estação e a paredes meias com o Monsanto.

À volta da estrada de Alfragide, logo ali ao Jordão, começou-se a construir, na década de 40, um pequeno núcleo habitacional constituído por quatro ruas em forma de cerquilha a que veio a dar-se o nome de Bairro Tacha por ser este o nome do seu construtor. Os meus pais arranjaram ali casa, julgo que em 46, quando se casaram. E ali tiveram os seus filhos e fizeram a sua vida.

Era o Bairro Tacha à Buraca. Nos anos 60 o nome começou a entrar em desuso e o bairro começou a chamar-se, simplesmente, Buraca. Mas já não era o mesmo: apareceram outras gentes e outros costumes, as cearas, as hortas, as quintas e os retiros foram desaparecendo e deixou de haver uma separação nítida entre a Buraca, Alfragide e a Damaia que passaram a ser nome para as três freguesias integradas no concelho da Amadora recentemente criado. Hoje a Buraca é um nó viário, um Amazonas de asfalto que rasga e seca a terra em todas as direcções.

O Zip

Tive uma infância tranquila. Passei-a grande parte dos primeiros anos no Poço do Chão.

A vivenda dos meus padrinhos tinha a entrada e os muros que a separavam da estrada do Poço do Chão voltados para o que é hoje o Colombo. A sul, situava-se a garagem, o jardim e a horta com arvores de fruta. Uma cerca de alvenaria coroada de arame farpado fechava a propriedade a poente e tapava os labirínticos corredores de trepadeiras em jeito de alpendre que continuavam por fora a parte posterior da casa, uma divisão envidraçada disposta a todo o comprido da construção que albergava entre outras actividades domésticas a lavandaria e a engomadoria. O jardim, cuidadosamente tratado, prolongava-se por um enorme relvado que abrigava o estendal da roupa e a casota do Zip, um cão com uma cabeça preta e branca tão grande que às vezes me tapava o sol quando prescutava com os seus olhos imensos os sinais de bem estar do meu rosto. O Zip cuidava de mim com um apurado e militar sentido de missão. A começo, quando me deixavam no carrinho protegido do sol pela sombra de uma fralda. Mais tarde, quando me deixavam a gatinhar na manta que se usariam ainda, descobri-o mais tarde, nos picnics na Lagoa Azul ou noutros pontos igualmente feéricos da Serra de Sintra. Nessa altura, o Zip partilhava comigo os seus guisos e fingia que caçava coelhos para me divertir.

Deste período da minha vida, naturalmente, pouco me recordo. Estava mais interessado em perceber a lógica dos eventos sociais do que em rabiscar a estrutura do mundo físico que se organizava à minha volta. A calmaria dos dias, desbaratados a dormir, era interrompida quando os meus padrinhos Alvaro, Elen e Eric chegavam do liceu e brincavam comigo. Mais tarde, chegava, vindo do escritório num carro preto, o padrinho Harald, o pai. Chegava todos os dias à mesma hora, inspeccionava meticulosamente cada uma das rosas do jardim e dava duas bolachas ao Zip que, meia hora antes, já se havia pendurado no muro da estrada a farejar a sua chegada. Quando era mais crescido, também eu me debruçava com o Zip sobre aquela estrada em que raramente passava uma carroça. E confidenciava-lhe as estórias que, momentos antes, a Leninha me tinha contado. Ele ria-se muito com aquela língua comprida toda dependurada da boça e arfava, a intervalos, como o motor do carro do padrinho. De vez em quando, levava uma valente lambidela, limpava-me às mangas do bibe, e lá nos púnhamos de novo à coca do focinho do grande carro negro a virar a curva da estrada.

Os limites e as veredas do mundo

Nasci não muito longe de Lisboa e ia a Lisboa a pé como os da velha Telheiras iam ao Campo Grande. As fronteiras não nos impressionavam muito, tirando as Portas de Benfica com as suas torres redondas orladas de ameias, e as distâncias mediam-se pelas pessoas que se encontravam. Entre a minha casa e Benfica, havia uma casa rústica de um senhor qure tinha umas vacas e era protestante. Ia lá muitas vezes buscar o leite e ele sentava-me num banco de ordenhar e lia-me a Bíblia. Calhando, atravessava a mata e, descendo-a, ia dar à avenida Grão Vasco. Apesar da curta distância, a fileira de casas de ambos os lados da procissão de amoreiras, que ia desde o externato à igreja, parecia-me interminável, o que a fraqueza das frágeis pernas corroborava. A outra volta era serpentear pela velha estrada das Garridas, que começava no velho apeadeiro de madeira escura da Buraca e ia dar ao chafariz da estrada de Benfica ao lado do que veio a ser a Caixa Geral de Depósitos, onde havia o Patronato contíguo ao campo de hóquei. Para ir à escola do Magistério Primário, onde hoje é a Escola Superior de Educação, ou ao cinema do clube na avenida Gomes Pereira, onde hoje é a junta da freguesia, começava-se por um carreiro que bordejava a  linha dos combóios até à estação de Benfica.

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Para além da estrada e da igreja, morava numa ponta da rua Cláudio Nunes, perto do cemitério, a minha tia Maria do cão preto, uma viúva tão vasta de corpo como de afecto, com três filhos: o mais velho que cedo foi para a Pérsia, o do meio que me levou ao cinema no dia em que fiz 5 anos, e uma prima da minha idade. Na direcção de Carnide, na estrada do Poço do Chão, moravam os meus padrinhos, dinamarqueses, local onde passei a maior parte do tempo dos meus primeiros cinco anos de vida. Andando um bocado a pé por aquelas azinhagas, ia-se à feira da Luz, onde a madrinha Leninha me comprava pífaros de barro.

 Para fora de Lisboa, ia às vezes a casa de uns tios que viviam ali para os lados da Venda Nova.

Mas o lugar de recreio, o mais vasto lugar de recreio, era o parque florestal do Monsanto para onde íamos ao domingo fazer picnics e sestas à sombra dos pinheiros ou ver os patos no lago no miradouro de onte eu espreitava o mundo em todas as direcções.

Os postais "à Lisboa".

Espero que hoje seja o fim de qualquer coisa. E só poderá ser o fim se for o começo de qualquer coisa.

Estou em Lisboa, vá-se lá saber, há ... Umas duas semanas? Para aí, mais coisa menos coisa. Começou uns dias antes da ida da Graça para Quito. É normal estar com ela uns dias antes da partida. É certo que é uma separação de apenas uma semana, não maior da que nos afastam os dias normais de trabalho, os ditos úteis. Mas os dias de fim-de-semana, que sinalizam habitualmente os nossos encontros e o nosso viver em comum, tiveram que ser antecipados e postergados, visto terem-se tratado de dias de partida e de chegada, respectivamente. A primeira antecipação do fim-de-semana e de preparação da partida é um exercício de imaginação que tem por resultado um notório efeito prático: fazer caber numa única mala a tralha inimaginável que uma mulher não dispensa em viagem. Fui pô-las ao aeroporto, a mulher e a mala. E instalei-me na minha solidão, agora em isolamento.

Há quem confunda os dois conceitos. A confusão não é conceptual, os termos até poderiam aparecer como sinónimos num dicionário. É de natureza experiencial: quem nunca viveu um e outro nunca lhes reconhecerá a diferença. Eu adoro a solidão e temo o isolamento.

No Tremontelo, a casa, o jardim, o pomar, o bosque de sobreiros e o mini-pinhal são sítios familiares, lugares comuns, onde exercito uma actividade que produz o meu ser e o meu estar. A casa em Lisboa tende a ser um sítio funcional, desabitada durante o dia e a maior parte dos fins de semana, é um lugar onde se dorme. Daí que ficar em Lisboa sem a Graça, acrescenta isolamento à solidão.

Mas fui ficando. Entre a partida e a chegada há que fazer aqueles consertos, manutenções e remodelações que se anda sempre a adiar. Que se podem fazer sem a presença de uma mulher: deixar um fio de cobre descarnado e dependurado do tecto e ir num pulo ao AKI comprar uma peça ou um acessório indispensável, trabalhar a fio sem ter que interromper porque o almoço está feito e a arrefecer, ter a casa toda de pantanas durante uns dias, tolerar a acumulação dos plásticos e cartões com que o IKEA embala os seus artigos, e acumular pó, caliça e serradura a um canto com a consciência tranquila de um psicopata imune a qualquer tipo de alergias. Os dias estiveram gelados, mais precisamente as noites, e permanecer em Lisboa, que beneficia de um clima mais moderado e de aquecimento doméstico mais eficaz e barato, é a opção racional.

A Graça voltou e não desgrudei. Fui ficando, cada vez menos por decisão e mais por inércia. Hoje espero pôr fim a isso, recomeçando a vida no Tremontelo. Life as usual.

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Entretanto, fui escrevendo umas coisas em Lisboa. São escritos à Lisboa. Não que estejam escritas no “papel”, mas que estão alinhavadas noutra “ardósia” à espera de saírem a público. São, sobretudo, viagens no tempo. Idas ao passado e retornos ao presente, onde se descobre a identidade radical de todas as épocas e as suas profundas diferenças.

É esse pôr no papel a incumbência para as próximas postagens no Tremontelo

O último postal no blogspot

1 de janeiro de 2015

Aonde leva o rio da vida?

 

 
Eu achava que era menino: pensava como um menino, sentia como um menino, corria atrás do bem estar e dos gozos imediatos, procurava chamar a atenção dos outros, acertava o comportamento pelo código da boa conduta, dentro da lei e dos usos, e de uma maneira geral nutria o sentimento de segurança que confere a cada um o pertencer a uma família, a uma cidade, a uma sociedade. Para completar esta premeditada e comprometida meninice, este jogo sujo de parecer um bom menino, acreditei, como me diziam, que até parecia um homem e, para satisfazer as expectativas universais, fiz-me um homem, creiam que me sentia ser um homem, com deveres e responsabilidades, jugo indispensável à quem quer permanecer menino apesar das aparências. Menino adulto, menino adulterado, mas sempre menino.
 
Quis a roda que preside às existências, sortear-me com o privilégio de um estado de saúde positivamente estável, e um vigor físico que ainda não cedeu aos caprichos da gravidade e da idade. As doenças conhecidas vêm de um passado remoto, alinhadas pelos genes com as gerações que me antecederam, e controlam-se a poder de comprimidos numa fuga em ziguezague como a do recruta no campo de tiro.
 
Eu achava que era um menino por dentro e por fora, nas aparições a mim e nas aparições aos outros.
 
Enquanto me estreava na meninice, sofistiquei na aprendizagem dos números e na agilidade das contas. Sou de uma geração que aprendeu com orgulho, e de cor, as tabuadas. E, a partir de ai, que se exercitou na práctica do cálculo mental. Era giro e até tinha montes de utilidade. As aplicações iam desde o controlo da colecção dos cromos das raças humanas até à gestão dos centavos com que os comprávamos. Não nos deixávamos enganar nos trocos e tínhamos sentido de poupança. Sabíamos o tempo que faltava para galgar cada degrau do crescimento e fazíamos rezas para que este passasse azinha, tempo era o que não faltava.
 
Havia os velhos, claro! Eles tinham o aspecto engelhado de quem se tinha cansado de acumular tanto conhecimento e tanta experiência. Chamávamos-lhes os avós, pessoas engraçadas que só elas sabiam contar estórias. Já eram crescidos e por isso tinham deixado de crescer. Iam ficar velhos para todo o sempre. É claro que nunca deixavam de trabalhar, naqueles tempos não havia reformas e trabalhar era tão natural para o comum dos mortais, como tomar banho todos os dias era para os ricos. Os velhos trabalhavam até poder. E garanto que podiam muito. Mesmo curvados e agarrados a um pau.
 
Continuo a achar-me menino apesar de um ou outro detalhe. O problema é que o diabo não está nos detalhes, o diabo está nos números.
 
E de que maneira! 
 
Quando era muito menino ia para a terra nas férias grandes. A terra distava a um dia de viagem por comboio da grande cidade e chegava-se lá cheio de foligem e empanturrado de uvas que se apanhavam quando a composição parava, para apanhar a lenha de alimentar a máquina, ou para apagar os fogos que esta espalhava por toda a parte. À chegada, a estação estava apinhada de gente: Era a família, um punhado de tios, mais de duas mãos cheias de primos e atrás de todos, claro, os avós.
 
Era gente engraçada, os avós.
 
Nasceram ambos no tempo do Senhor D. Luis. Ele pequenino, reservado, hirto, um rosto embigodado que era um espelho de autoridade. A pele tinha o tom da sépia como o das fotografias antigas. Olhava para nós com a compaixão que merecem os refugiados vindos da grande cidade: para eles, nós éramos todos amarelentos, enfezados, passa fomes, que íamos ali a apanhar ares, a comes e bebes e o sentido de toda aquela canseira era voltarmos rosados e bem nutridos devido, seguramente, à pureza do ar das serras, das águas nascidas das raízes dos pinheiros e dos alimentos que vêm da terra. Ela, alta, enxuta, rosto feliz e maroto. Fazia queijos a preceito e contava estórias do arco da velha. Eu gostava mesmo deles é sentia que era retribuído da mesma forma.
 
Hoje, que estou para aqui a achar-me menino, confronto-me com a crueldade dos números. É que já há muito ultrapassei a idade que eles tinham quando os conheci. 
 
Sem netos a quem contar estórias, sinto-me um menino fora do prazo. Sou velho, mas por calendário.
 
Por isso, conto estórias ao vento que passa...
 
      
 

 

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